Luana Claro: ler é un hábito da escrita

Porxmeyre

03/01/2021

Comezamos novo ano e queremos facelo tamén cun nome novo, un nome novo que é promesa e realidade na poesía brasileira actual. Con estas esixencias, o de Luana Claro parécenos un dos máis axeitados. Entre otras cousas porque a autora é moi consciente de que a súa poesía nace e asenta sobre lecturas previas. Nesta altura, encetando 2021, é sumamente complexo querer escribir algo que non se teña escrito xa alguna vez nalgún lugar. Ademais a poesía  de Luana Claro (São Paulo, 1994) lembra que escribir sen ler é cousa que só fan @s inxenu@s que cren posuír un mundo interior tan rico e excelso que por si mesmo é novidade. E non. Para nada. Nada se fai sen a lectura. A lectura previa resulta absolutamente imprecindíbel

 De Luana Claro coñecemos Diadorim, publicado pola Patúa en 2017. Xa nos ten pasado con anterioridade divulgar poetas cun único título publicado, e mesmo temos divulgado sen a existencia dese primeiro título en papel. Ben, no 2020 foi secleccionada por Urutau para un libro de colaxes e poesía: Construção, así que en puridade non é autora dun único texto.

De primeiras, a poesía de Luana Claro pode que non a entendamos na súa totalidade. Non a entenderemos na súa totalidade a menos que nesa lectura contemplemos con moita atención o plano estético, o plano formal da súa escrita porque é algo que para Luana ten especial importancia. Só entón podemos acceder ao significado completo da súa poesía. A súa poesía que, finalmente, é un modo de ser. O cal significa que non escribe poesía, vive esa poesía antes de escribila e tamén despois. Velaí o sinal que indica para unha autoría moi a ter en conta porque nunca deixará de ser poeta. Mais iso non significa que para ela a poesía tamén sexa revelación, revelación puntual dun verso, dunha idea, dunha poisibilidade a desenvolver; de xeito que a súa tamén é unha poesía evolutiva, que non se disolve únicamente no pre-mundo das lecturas previas. Nomes importantes para explicar a poesía de Luana Claro son a portuguesa Ana Luísa Amaral, a brasileira Angêlica Freitas ou o “hebreo” Amos Oz…e queda claro que non só le poesía, que o seu mundo é a literatura á vez que o seu propósito sempre é a comunicabilidade, por iso ilustra ela mesma os seus libros e reforza o que xa dixemos: o plano formal, o plano estético resulta fundamental, fundamental aínda que por veces pareza que a escrita non logra comunicar todo o que a autora pretende e por iso bota man da expresión plástica…e aínda así non hai garantías de que todo fique expresado.

Por iso, repito, lean a súa poesía con suma atención, demoradamente. Degústena na súa totalidade, lean e volvan reler. É fácil vivir cos ollos pechados. A poeta e a súa poesía conseguen que os abramos a cousas que poida que nos pasaran desapercibidas de primeiras.

Tamén cómpre dicir que Luana Claro é unha persoa que escribe desde o compromiso social. A xente é política, fai política en calquera das súas manifestacións vitais, sempre. Ela, como muller lesbiana e representante do colectivo LGTBI+, é moi consciente diso e esa é outra dimensión que  non debe escapar na lectura dos seus textos. Uns poemas que, se se fixan, moitas veces recorren á seriación, van unidos un aos outros como procurando un macrotexto semánticamente máis completo e complexo.

Este é o seu Faceboook

Agora quedamos coa súa poesía.

(Na Ruido Manifesto)

o homem dilacerado caminha

a passos sofridos estende

o jornal e não lê, chora

tremelica suplica

não sou filho não sou pai

só quero morrer já fiz de tudo

todas essas palavras são inúteis

à noite o homem dilacerado sonha

com suas mãos encolhidas

que ainda vive e com rostos

que não são o de minha irmã

*

de repente ele começou a falar uma língua estranha. ninguém

podia compreender que diabos. uns sons frágeis e pequenos e sem forma,

*

certo dia ele sumiu. por onde saiu, não se viu. pudera: estava tão pequeno

que mal podia enxergá-lo,

*

é difícil acreditar, mas acho que ele voltou. diferente,

ele não é mais o homem de antes. agora ele cabe dentro

de uma gaiola, continua a emitir os sons frágeis,

*

pardal-de-java

pássaro-do-arroz

olhos familiares

*

convencionou-se abolir as gaiolas

concordou-se que eram demasiado

desumanas

assim estabeleceu-se a rotina do homem

fitar o ambiente com estranheza

emitir eventualmente seus piados

mais comunicar-se com os olhos

de cabeça de alfinete do que com a língua

da qual gradualmente tornou-se um estrangeiro

*

o que importa, entretanto, é em qual língua ele sonha,

*

num raiar de agosto notou-se constatou-se

o desaparecimento total do homem

acredita-se que ele pode ter continuado

a diminuir até o fim

acredita-se, especialmente, que ele voou

para o mar do qual nutria imensa saudade

acredita-se

acredita-se

*

e despeja teu canto genuíno

como se o último fosse

uma vez que não se sabe

toda palavra é por sua vez

ela mesma última

…………

Anuário

falar dos falecimentos

e dos acidentes

sobretudos dos falecimentos

que são resultado dos acidentes

graves

o inverso pouco interessa

*

certamente o conhecimento prévio

poderia nos salvar desse

ou daquele acidente

naquele ano nenhum avião grande

caiu na cidade ou no país

o toninho sofreu um acidente de carro

por sorte nada lhe aconteceu

tão somente por sorte

embora houvesse conhecimento prévio

do risco

a filha do português enlouqueceu

uma grande tragédia

mas não um acidente

seus gritos ecoavam pela rua

enquanto seu cérebro era comprimido

de dentro para mais adentro

mais do que um acidente

má sorte

e para esse mal não há mesmo

conhecimento prévio que preste

*

nem todo acidente é simultaneamente má sorte

nem toda má sorte é simultaneamente acidente

existem acidentes

que não passam de uma questão de perspectiva,

graças a deus

já a má sorte é unívoca, por azar

*

naquele ano houve certamente

acidente de toda sorte

a maior parte deles figurava

nas fotografias tiradas por roberto

que trabalhava na perícia

do estado de são paulo

amigo de arnaldo

que principiava alguma-coisa-de-acidente

na impossibilidade de palavra melhor

roberto recebeu um convite

que fotografasse o casamento de arnaldo

que não chegava a parecer uma tragédia

naquele ano

ainda

apesar do conhecimento prévio

que se tinha a respeito dos fatos

se alguém dissesse a arnaldo que ele

pouco tempo depois disso estaria

embaixo de um ônibus

pela morte de seu primeiro filho nascido

a motocicleta marcada pela dureza do asfalto

ele não acreditaria

na potência dessa alguma-coisa-de-acidente

embora esses acontecimentos não pudessem

ser organizados em causa e consequência

e lá se vão os anos

marcados pela dureza do tempo

e alguma má sorte

mas naquele ano estavam todos na festa

de casamento do arnaldo

e o fotógrafo de acidentes a procurar

o que poderia ser uma questão

de acidente ou perspectiva

ou quem sabe sorte

*

naquele ano morreu clara nunes,

após muitos dias em coma

*

o ofício de roberto se assemelha

à montagem de um anuário

capturar do acidente

o que sobra do acidente

do ano

o que sobra do ano

e lá se vão os dias

…….

o ruído da porta rangendo

ecoa vindo do fundo da mente

mesmo de olhos fechados

há o fato irreversível inegável

é preciso coragem

para encarar a entreaberta

porta seu feixe de luz

suas infinitas possibilidades

e da minha visão

metade é escuridão e

metade é amanhecer e

muito me faz falta a fé

para crer sem ver

nos contornos do invisível

*

hoje quase peguei o ônibus errado duas vezes e isso

invocou em mim as ruas labirínticas da cidade

em que o céu se desmancha

em escuridão nascente

a confusão que fiz com os nomes

não será perdoada

a memória anda ruim para coisas boas e pequenas

repentinamente a pequenez das coisas é o que importa

as pequenas ruas da cidade

penso no átimo que existe entre o acerto e o erro

em como posso entender os meandros do tempo

quem sabe pegar o ônibus errado

numa viela qualquer esbarrar no grande maléfico

entender os desígnios do invisível

compreender o que seus contornos me mostram, por fim

ah, como queria poder colocar

o coração no bolso

me desaparecer de mim

numa viela qualquer

*

o tempo constrói lentamente

um monumento entre nós

seus meandros são um mistério

tua figura solar se delineia contra o desconhecido

tua figura solar encarna por vezes o inexplorado

em que lar repousa teu pensamento

e quanto perdeu-se de ti

pelas veredas que a muito contento

teus olhos vislumbraram

de mim, quanto havia em ti

do meu amor,

quanto ficou pelo caminho

quanto ainda resta

quanto é necessário

quanto havia no teu pensar

quanto havia na tua ideia de lar

quanto havia na tua volta

tua figura solar me faz lembrar

dos pássaros, do pássaro que parte

para norte ou sul, indelével

e que nunca é o mesmo quando volta

*

lembro quando pequena

da jaqueta vermelha

ou era amarela?

tingi minha intenção

de azul anis

era apenas mais um corpo

na cidade do sol

mas minha vontade era púrpura

e meu desejo, vermelho

lembro da camada que por costume

sucessivamente depositamos

sobre a parede da memória

era amarela ou verde?

………………………….

(Na Gueto)

menina
vem aqui colocar um brinco
não é assim que se brinca de

menina
já te disse, fecha as pernas
ou sofrerá duras penas de

menina
não fala desse jeito não ou te
dou um safanão pra aprender a ser

menina

*

escuta o que digo
não sou bonita

quando estou rastejando
por vida eu não sou
quando o sol nasce,
não sou
quando se põe
não sou também

quando deixo de prestar
atenção a toda ficção,
não sou também

quando me abandono,
não sou
não espere nada de mim

*

é infeliz que não se
ensine em lugar algum
como vencer o próprio corpo
como vencer o peso do próprio corpo

……………………….

(Na revista da USP Opinaes )

Porxmeyre

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